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Dia Mundial da Saude Mental

Neste ano tão desafiante, o Dia Mundial da Saúde Mental tem, para mim, um sabor agridoce. Doce pois sinto que posso afirmar que nunca se falou tanto em saúde mental como agora, o que é fundamental para desconstruir os preconceitos e estigmas que a enleiam e, assim, promover o reconhecimento da sua importância e acesso a serviços profissionais de apoio.


Acre porque a saúde mental continua a ser o “parente pobre” da saúde. Em 2018, os portugueses gastavam “600 mil euros por dia em psicofármacos” (Ordem dos Psicólogos Portugueses), ou seja, anti-depressivos, ansiolíticos, sedativos, hipnóticos e anti-psicóticos. Em 2020, não tenho dados credíveis para este indicador, mas é sabido que disparou. Se, até à pandemia, 1 em cada 4 portugueses apresentava algum problema de saúde mental, este número é actualmente ainda mais elevado. Os diagnósticos de depressão e ansiedade cresceram exponencialmente nos últimos anos, sendo a depressão um dos principais motivos de incapacidade para o trabalho no nosso país. Mas continuamos sem uma política e uma cultura de investimento em saúde mental, tentando remendar as situações com medicamentos sem qualquer investimento na promoção da saúde mental.

O que afasta as pessoas do psicólogo? Para mim, a resposta envolve duas ordens de razões: os recursos e o estigma, acreditando que este condiciona aqueles. Sem estigma e com conhecimento, é mais fácil mobilizar recursos e procurar ajuda. Os preconceitos em torno da saúde mental são ainda muitos: as suas causas e manifestações são pouco compreendidas pela sociedade e pelo próprio, assim como as suas características. São quase sempre invisíveis (mas “o essencial é invisível aos olhos”), e há a crença generalizada que são sinal de fraqueza, capricho, falta de força de vontade, chamadas de atenção, fases pelas quais todos passamos e, portanto, ‘normais’, sendo obrigação de todos saber lidar com elas. No fundo, as pessoas com problemas de saúde mental – que somos, potencialmente, todos nós em determinado período da nossa vida – são vistas como fracas, incapazes e culpadas pelos seus próprios problemas. E este estigma social está de tal forma enraizado que é sentido, profundamente, em relação a si próprio quando os sintomas surgem. Por esse motivo, e porque lido com este duplo sofrimento há mais de uma década no consultório, aproveito este Dia Mundial da Saúde Mental para lançar o desafio de pararmos um pouco e olharmos para dentro de nós. Está tudo bem, ou andamos a varrer a dor para debaixo do tapete há demasiado tempo?

O que me leva a outra questão. Em que situações é que um psicólogo pode ajudar?
– Depressão (sentimentos profundos de desespero, desamparo, tristeza, desesperança, dor, incapacidade de sentir ânimo ou prazer);
– Stress e ansiedade (se, dentro de certos parâmetros, são uma resposta adaptativa aos desafios do dia-a-dia, frequentemente escalam para níveis problemáticos, desgastantes e incapacitantes);
– Lidar com a perda/luto (o facto de fazer parte da vida não significa que seja fácil e muito menos que deva ser vivido a sós) e com acontecimentos de vida complexos (uma doença oncológica ou degenerativa, por exemplo);
– Quadros de pânico e fobias (a animais, a sítios, à ideia de morte);
– Dificuldades ligadas à sexualidade (no seu sentido lato e como componente intrínseca ao ser humano enquanto ser biopsicossocial);
– Adições e outros hábitos comportamentais problemáticos (onde incluímos os vícios, com ou sem substância, perturbações alimentares e de sono, por exemplo);
– Problemas relacionais (somos seres sociais por natureza, mas é frequente precisarmos de ajuda para lidarmos com dificuldades e desafios nos nossos relacionamentos mais significativos, sejam eles familiares, românticos, de trabalho, amizades);
– Aprofundar o auto-conhecimento, preparar transições desenvolvimentais/acontecimentos de vida significativos, melhorar o desempenho geral, obter maior clareza e serenidade relativamente a um determinado tópico, decisão ou momento de vida;
– Lidar com problemas de saúde mental mais complexos (depressão major, stress pós-traumático, perturbação bipolar, perturbações psicóticas, por exemplo).


Neste Dia Mundial da Saúde Mental, gostava de promover a reflexão sobre a necessidade de auto-cuidado e observação regular de tudo o que temos cá dentro. 


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Corina Salvador

Corina Salvador

Licenciada em Psicologia na área de Consulta Psicológica de Jovens e Adultos pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, onde concluiu a sua Especialização em Psicoterapia de Casal e Saúde Sexual Membro efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, com a cédula profissional n.º 5230. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e em Psicologia da Educação, tendo igualmente reconhecidas as especialidades avançadas de Sexologia e de Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira pela OPP. Pós-Graduada em Terapia Sexual. Com vasta experiência clínica, as suas principais áreas de intervenção são as perturbações emocionais, da ansiedade, da disposição e do comportamento alimentar, o apoio ao processo de luto, a adaptação às transições desenvolvimentais e aos acontecimentos de vida, perturbações psicossomáticas, depressão, compulsões, fobias, a terapia de casal, sexual e familiar, reorganização pessoal pós-traumática, gestão do stress, pânico, a inserção social, os comportamentos aditivos e dependências e as problemáticas relacionais, a consultoria/aconselhamento parental perturbações do sono, problemas comportamentais na infância, a orientação vocacional e a avaliação psicológica. O seu interesse pelas questões da sexualidade, relações de intimidade, identidade e cidadania levou-a a aprofundar conhecimentos nas áreas da terapia sexual e de casal e da intervenção com população LGBTQI+.
Corina Salvador

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